-Comentários
de Gurdjieff sobre a arte e os Movimentos-
"Tu
não podes fazê-lo, no entanto, não será feito sem ti"
-Mme.
De Salzmann-
Pergunta: Que
lugar ocupa a arte e o trabalho criativo no seu ensino?
Resposta: "Hoje em dia, a arte não é necessariamente
criativa. Para nós, ela não é um objectivo, mas sim um veículo. A arte
antiga tem um conteúdo interno. No passado, a arte contribuía para o
mesmo propósito para o qual hoje servem os livros, o propósito de preservar
e transmitir certo conhecimento. Nos tempos remotos, não se escreviam
livros, o conhecimento era expresso através de trabalhos artísticos.
Encontramos muitas ideias na arte antiga que pode chegar até nós, sem
que, no entanto, saibamos como lê-la. Naqueles tempos a arte era assim,
inclusive a música. E as pessoas de então observavam a arte dessa forma.
Tu viste os nossos Movimentos e Danças. Mas tudo o
que viste foi a forma externa, a beleza, a técnica. A mim não me interessa
a parte externa que vês. Para mim, a arte é um meio que serve para o
desenvolvimento harmónico. A ideia subjacente em tudo o que fazemos
é fazer o que não pode ser feito automaticamente e sem pensamento.
As ginásticas e as danças comuns são mecânicas. Se
o nosso objectivo é um desenvolvimento harmonioso do ser humano, então,
para nós, as Danças e os Movimentos são uma forma de combinar a mente
e o sentimento com os movimentos do corpo, manifestando-os conjuntamente.
Em todas as coisas, temos o propósito de desenvolver algo que não pode
ser desenvolvido directamente ou de forma mecânica, e que interpreta
o ser total: mente, corpo e sentimento.
O segundo propósito das danças é o estudo. Certos
Movimentos contêm um testemunho em si próprios, um conhecimento definido,
ou ideias religiosas e filosóficas. Em alguns deles pode-se, inclusivamente,
ler uma receita de cozinha para preparar um prato. Em muitas zonas do
Oriente, o conteúdo interno de uma ou de outra dança está, agora, quase
esquecido, muito embora as pessoas continuem a dançá-las, simplesmente,
por hábit
Portanto, os Movimentos têm dois objectivos: o estudo
e o desenvolvimento."
"Não
sei de que arte falais. Primeiro deves recordar-te de que há dois tipos
de arte, sendo um bastante diferente do outro: a arte objectiva e a
arte subjectiva. Tudo o que conheces, a que chamas arte, é arte subjectiva,
ou seja, algo a que eu não chamo arte em absoluto, porque só chamo arte
à arte objectiva.
É
difícil de definir aquilo a que chamo arte objectiva, antes de mais,
porque atribuis à arte subjectiva as características da arte objectiva
e, em segundo lugar, porque quando estás perante um trabalho de arte
objectiva, o pões ao mesmo nível de um trabalho de arte subjectiva.
Vou tentar tornar a minha ideia mais clara. Tu dizes: um artista cria.
Eu digo isso só em relação à arte objectiva. Em relação à arte subjectiva,
digo: isso "é criado" com ele. Não vês a diferença destas duas coisas,
mas é aqui que reside toda a diferença. Depois, atribuies à arte subjectiva
uma acção invariável, na medida em que esperas que o trabalho deste
tipo de arte tenha a mesma acção em todas as pessoas. Crês, por exemplo,
que a marcha funerária deveria provocar em todas as pessoas tristeza
e pensamentos solenes, que qualquer dança ou música, um Komarinsky por
exemplo, provocará pensamentos felizes. Mas na realidade não é assim
em absoluto. Tudo depende da associação. Se num dia de grande infortúnio
para mim, escuto uma melodia alegre pela primeira vez, esta melodia
evocará em mim tristeza e pensamentos opressivos para o resto da minha
vida. Mas se num dia em que estou particularmente feliz, escuto uma
melodia triste, esta melodia evocará sempre pensamentos felizes. E assim
é com tudo.
A diferença entre arte objectiva e arte subjectiva
é que o artista da arte objectiva realmente "cria", isto é, faz o que
deseja. Põe no seu trabalho qualquer ideia ou sentimento que queira
introduzir e a acção desse trabalho sobre as pessoas é absolutamente
definida; as pessoas receberão, supostamente, de acordo com o seu próprio
nível, as mesmas ideias e os mesmos sentimentos que o artista queria
transmitir. Não pode haver nada acidental, nem na criação, nem nas impressões
da arte objectiva.
Na arte subjectiva tudo é acidental. O artista, como
acabo de dizer, não cria; "cria-se a si mesmo". Isto significa que está
debaixo do jugo das ideias, dos pensamentos e dos estados de ânimo,
que nem ele mesmo entende, e dos quais não tem controlo. Tudo isto o
domina e se expressa por si mesmo, de uma forma ou de outra. E quando
toma, acidentalmente, esta ou aquela forma, também, de modo acidental,
produz sobre as pessoas esta ou aquela acção, de acordo com o seu estado
de ânimo, gostos, hábitos, a natureza da hipnose debaixo da qual vivem,
etc. Não há nada invariável; aqui não há nada definido. Na arte objectiva
nada é indefinido."
Pergunta: A
arte não desaparecerá ao ser determinada dessa forma?
Não será, exactamente, uma certa indefinição, aquilo
que distingue a arte de, digamos, a ciência? Se se tira esta indefinição,
se se tira o facto de o artista não saber ele próprio o que vai obter,
ou a impressão que o seu trabalho produzirá sobre as pessoas, então
será um "livro" e não arte.
Resposta:"Não sei do que estás falando. Temos diferentes
critérios. Eu meço o mérito da arte pela sua consciência e tu mede-lo
pela sua inconsciência. Não nos podemos entender um ao outro. Um trabalho
de arte objectiva deve ser um livro, como tu lhe chamas; a única diferença
é que o artista não transmite as suas ideias, directamente, através
de palavras, sinais ou hieróglifos, mas sim através de certos sentimentos
que estimula conscientemente e de forma ordenada, sabendo o que está
fazendo e porquê."
Pergunta: Têm-se
preservado lendas sobre estátuas de deuses em templos da antiga Grécia,
por exemplo, a estátua de Zeus no Olimpo, sobre as quais se diz que
produziam sobre as pessoas uma impressão definida e sempre idêntica.
Resposta:"É certo e, inclusivamente, o facto de existirem
semelhantes histórias demonstra que as pessoas entenderam que a diferença
entre a arte real e irreal se encontra precisamente nisso, numa acção
invariável ou acidental."
Pergunta: Pode
indicar outros trabalhos de arte objectiva? Há algo que se possa chamar
de arte objectiva na arte contemporânea? Quando é que foi criado o último
trabalho de arte objectiva?
Resposta:"Antes de falar disso devem-se entender alguns
princípios. Se compreenderem os princípios, serão capazes de responder
a essas perguntas por vós mesmos. Porém, se não os compreenderem, nada
do que eu possa dizer os explicará. Era exactamente sobre isto, que
foi dito:verão com os seus olhos e não perceberão, ouvirão com os seus
ouvidos e não entenderão.
Citarei só um exemplo, a música. A música objectiva
está baseada em "oitavas interiores". E, não só pode obter resultados
psicológicos definidos, como também resultados físicos definidos. Pode
haver música que congele a água, ou que mate uma pessoa instantaneamente.
A lenda bíblica da destruição dos muros de Jericó pela música é, precisamente,
uma lenda de música objectiva. A música vulgar, não importa de que tipo,
não destruirá muros, ao contrário, a música objectiva pode fazê-lo.
E não só pode destruir, como também construir. Na obra de Orfeu há trechos
de música objectiva, porque ele costumava distribuir conhecimento através
da música. Os encantadores de serpentes no Oriente são uma aproximação
à música objectiva, supostamente, muito primitiva. Muitas vezes, é simplesmente
uma nota que se expande, apenas ascendendo ou descendendo muito pouco,
mas nesta única nota há oitavas interiores que se sucedem, a todo o
tempo e melodias destas oitavas, que são inaudíveis para os ouvidos,
mas sentidas pelo centro emocional. E a serpente escuta esta música,
ou melhor, sente-a e obedece -lhe. A mesma música, apenas um pouco mais
complicada e os seres humanos a obedeceriam.
Assim, a arte não é só uma linguagem, mas sim algo
maior. E se relacionares o que acabo de dizer com o que disse anteriormente
sobre os diferentes níveis de ser no homem, entenderás o que se disse
sobre a arte. A humanidade mecânica consiste em seres humanos número
um, número dois e número três e estes, supostamente, só podem ter arte
subjectiva. A arte objectiva requer, pelo menos, flashes de consciência
objectiva. Para compreender estes flashes adequadamente e fazer um correcto
uso deles, é necessário uma grande unidade interna e um grande domínio
de si mesmo."
"Como
é com tudo, assim é com os Movimentos"
-G. I. Gurdjieff-
"Perguntas-me
sobre o propósito dos Movimentos. Cada posição do corpo corresponde
a um certo estado interno e, por outro lado, cada estado interno corresponde
a uma certa postura. Um ser humano, ao longo da sua vida, tem um certo
número de posturas habituais que vai adoptando, sem reparar no que se
encontra pelo meio.
Adoptar posturas novas e não habituais capacita-te
para te observares a ti mesmo, de forma diferente daquela como fazes
habitualmente em condições normais. Isto torna-se especialmente claro,
quando à ordem de "stop!" tens que ficar imóvel de repente. Com esta
ordem tens que te paralisar, não só externamente, mas também parar todos
os teus movimentos internos. Os músculos em tensão devem permanecer
no mesmo estado de tensão e os que estavam relaxados devem permanecer
relaxados. Deves esforçar-te por manter os pensamentos e os sentimentos
como estavam e, ao mesmo tempo, observar-te a ti mesmo.
Por exemplo, queres ser actriz. As tuas posturas habituais
estão orientadas para representar de forma concreta, por exemplo, uma
serviçal. No entanto, tu queres representar o papel de uma condessa.
Uma condessa tem posturas bastante diferentes. Numa boa escola de arte
dramática aprenderás, digamos, duzentas posturas. Para uma condessa
as posturas características são, digamos, as posturas 14, 68, 101 e
142. Se souberes isto, quando estás em cena, simplesmente tens de passar
de uma postura para outra e, independentemente da má representação que
possas fazer, serás uma condessa o tempo todo. Porém, se não conheceres
estas posturas, então, até uma pessoa que tenha uma visão pouco treinada
sentirá que não és uma condessa, mas sim uma serviçal.
É
necessário que te observes a ti mesmo de forma diferente daquela com
que o fazes na vida quotidiana. É necessário ter uma atitude diferente,
não a atitude que tens tido até agora. Já sabes até onde te têm levado
as tuas atitudes até agora. Não tem sentido continuar assim, nem por
ti, nem por mim, porque não desejo trabalhar contigo se permaneceres
como eras. Queres conhecimento, no entanto o que tens tido até hoje
não era conhecimento. Era só uma colecção mecânica de informação. É
conhecimento fora de ti, não dentro. Não tem valor. O que te importa
é que o que sabes tenha sido criado em algum momento, por alguém? Não
foste tu que o criaste e, assim sendo, tem pouco valor.
Toda a gente tem um repertório de posturas habituais
e de estados internos. Ela é pintora e, talvez digas, que tem o seu
próprio estilo. Porém, isso não é estilo, é limitação. Qualquer coisa
que os seus quadros representem será sempre o mesmo, pinte ela um quadro
da vida europeia ou do Oriente. Reconhecerei logo que foi ela, e não
outra pessoa, que o pintou. Um actor que é sempre o mesmo em todos os
seus papéis, simplesmente ele mesmo, que tipo de actor é? Só de forma
milagrosa poderá ter um papel que corresponda, por inteiro, ao que ele
é na vida.
Em geral, todo o conhecimento até hoje tem sido mecânico,
da mesma forma que tudo tem sido mecânico. Por exemplo, olho para essa
mulher com amabilidade; ela, de repente, se torna amável. Se a olho
com enfado, ela, de repente, incomoda-se e, não só comigo, mas também
com o seu vizinho, e este vizinho com outra pessoa e assim por diante.
Ela está enfadada porque eu a olhei enojado. Está enfadada mecanicamente.
Não pode enfadar-se de forma livremente voluntária. É escrava das atitudes
dos demais. E isto não seria assim tão mau, se os demais fossem sempre
seres humanos; ela também está escrava de todas as coisas. Qualquer
objecto é mais forte do que ela. É uma contínua escravatura. As tuas
funções não são tuas, mas sim, tu mesmo és função do que sucede em ti.
Para as coisas novas deves aprender novas atitudes.
Vês, agora todos estão escutando a sua própria forma, uma forma que
corresponde à sua postura interna. Por exemplo, esta pessoa escuta com
a sua mente e tu com o sentimento; se vos pedirem que repitam o que
escutais, todos o repetireis à vossa maneira, de acordo com o vosso
estado interno momentâneo. Após uma hora, alguém diz algo desagradável
a alguém, enquanto tu explicas um problema matemático por resolver.
Ele repetirá o que tinha escutado colorido pelo seu sentimento, e tu
faze-lo-ás de uma forma lógica.
TTudo isto é devido a que só há um centro trabalhando,
por exemplo, a mente ou o sentimento. Deves aprender a escutar de uma
outra forma. O conhecimento que tens tido até agora é o conhecimento
de um centro, conhecimento sem compreensão. Há muitas coisas que saibas
e que, ao mesmo tempo, entendas? Por exemplo, sabes o que é a electricidade,
no entanto, compreende-la tão claramente como compreendes que dois e
dois são quatro? Este último, entende-lo tão claramente que nada pode
provar-te o contrário, porém, com a electricidade é diferente. Hoje
é-te explicado de uma forma e tu acreditas. Amanhã, se te pudessem dar
uma explicação diferente, também acreditarias. No entanto, a compreensão
é a percepção, não só de um centro, mas sim de pelo menos dois.
Existe uma percepção mais completa, porém, de momento,
é suficiente se conseguires que um centro controle o outro. Se um centro
percebe e o outro aprova a percepção, está de acordo com essa percepção
ou a reafirma, isso é compreensão. Se um argumento entre centros fracassa
na hora de produzir certo resultado, será uma compreensão pela metade.
A compreensão pela metade também não é boa. É necessário que escutes
tudo, que tudo o que fales ou escutes não seja só com um centro, mas
sim com pelo menos dois. De outra forma, não haverá um resultado correcto,
nem para mim, nem para ti. Para ti, será o de antes, uma mera acumulação
de informação nova."