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"Por detrás do movimento visível há um outro movimento; aquele que não pode ser visto; que é muito forte e do qual depende o movimento externo. Se este movimento interno não fosse tão forte, o externo não teria qualquer acção."

                                               Mme. de Salzmann-

   As danças sagradas de Gurdjieff apontam para a necessidade de associar o corpo com uma aspiração interna, espiritual. Esta necessidade foi esquecida, o corpo vive àparte, e não sentimos a limitação que esta situação impõe em todos os aspectos da nossa vida. Não saboreamos as possibilidades latentes no corpo, não sabemos ouvi-lo nem tomar contacto com ele.

   É em termos de abertura ao sagrado que podemos entender o trabalho com as danças de Gurdjieff. Esta abertura pode libertar-nos da nossa mecanicidade, enquanto nos revela o aspecto essencial da nossa natureza, o estado natural do ser que foi esquecido.

   Numa entrevista, Mme. Solange Claustres, estudante pessoal de Gurdjieff, descreve os movimentos e como devem ser praticados da seguinte forma: "estes movimentos contêm a lei da evolução da consciência humana. Expressam como e em que direcção essa progressão deve ir e, como tal, são uma escola no sentido real da palavra. O corpo compreende os Movimentos de uma forma própria. Temos que desenvolver uma nova atenção para não entrar em confusão devido aos seus complexos padrões assimétricos. Temos que usar o pensamento conscientemente para visualizar a cronologia da dança. Se fizermos isso, seremos tocados por uma nova visão. Nesta visão compreenderemos que fazemos parte de uma construção de grande beleza, quase inconcebível. E em tudo isto, a música é não só um acompanhamento, mas também uma parte viva e integral do trabalho interno que acontece durante o movimento."

   Depois de uma actuação de Danças Sagradas que teve lugar na América, alguém perguntou a Gurdjieff que lugar ocupava a arte e o trabalho criativo no seu ensino. Ele respondeu: "tu vês os nossos movimentos e danças, mas tudo o que consegues ver é a forma externa; a beleza, a técnica. Não gosto do lado externo que tu vês. Para mim, a arte é o meio para o desenvolvimento harmónico do ser humano. Em tudo o que fazemos a ideia subjacente é a de fazer o que não pode ser feito mecanicamente e sem pensamento. Se para nós o propósito for este desenvolvimento, então as danças são um meio de combinar a mente e o sentimento com os movimentos do corpo, manifestando-os juntos. Em todas as coisas temos o propósito de desenvolver algo que não pode desenvolver-se directa ou mecanicamente,o qual interpreta o ser total: mente, corpo e sentimento. O segundo propósito das Danças é o estudo. Assim os Movimentos têm dois objectivos: o estudo e o desenvolvimento."

   À laia de conclusão, pode-se dizer que as ideias, a música e os Movimentos de Gurdjieff representam o intelecto, o coração e o corpo de uma mesma visão, sendo um testemunho vital do trabalho de um homem que se intitulou a si mesmo mestre de dança.