Página de inicioO trabalho
 

   Perguntei a Gurdjieff o que um homem devia fazer para assimilar o seu ensinamento.

   O que deve fazer? Exclamou, como se esta pergunta o surpreendesse. Mas ele é incapaz de fazer seja o que for. Ele deve, antes de tudo, compreender certas coisas. Tem milhares de ideias falsas e de concepções falsas, principalmente sobre si mesmo e deve começar por se libertar ao menos de algumas delas, se quer algum dia adquirir seja o que for de novo. Doutro modo o novo seria edificado sobre base falsa e o resultado seria ainda pior.

   Como pode um homem libertar-se das ideias falsas? Perguntei. Dependemos das formas da nossa percepção. As ideias falsas são produzidas pelas formas da nossa percepção.

   Gurdjieff fez que não com a cabeça:

   Fala ainda de outra coisa. Fala dos erros que provêm das percepções, mas não se trata disso. Dentro dos limites de dadas percepções, pode-se errar mais ou menos. Como já lhe disse, a suprema ilusão do homem é a sua convicção de que pode fazer. Todas as pessoas pensam que podem fazer, todas as pessoas querem fazer e a sua primeira pergunta refere-se sempre ao que terão que fazer. Mas, para dizer a verdade, ninguém faz nada e ninguém pode fazer nada. É a primeira coisa que é preciso compreender. Tudo acontece. Tudo o que ocorre na vida de um homem, tudo o que se faz através dele, tudo o que vem dele -tudo isso acontece. E isso acontece exactamente como a chuva cai porque a atmosfera nas regiões superiores da atmosfera se modificou, como a neve se derrete sob os raios do sol, como a poeira se levanta com o vento.

   "O homem é uma máquina. Tudo o que faz, todas as suas acções, todas as suas palavras, os seus pensamentos, as suas convicções, as suas opiniões, os seus hábitos, são os resultados das influências exteriores. Por si mesmo, um homem não pode produzir um único pensamento, uma só acção. Tudo o que diz, faz, pensa, sente, tudo isso acontece. O homem não pode descobrir nada, não pode inventar nada. Tudo isso acontece."

   Mas, para estabelecer esse facto, para compreendê-lo, para convencer-se da sua verdade, é preciso libertar-se de milhares de ilusões sobre o homem, sobre o seu ser criador, sobre a sua capacidade de organizar conscientemente a sua própria vida e assim por diante. Nada disso existe. Tudo acontece - os movimentos populares, as guerras, as revoluções, as mudanças de governo, tudo isso acontece. E acontece exactamente do mesmo modo como tudo acontece na vida do homem individual. O homem nasce, vive, morre. Tudo acontece. O homem não ama, não odeia, não deseja- tudo isso acontece.

   "Mas nenhum homem jamais acreditará em você, se lhe disser que ele não pode fazer nada. Não se pode dizer nada de mais desagradável e ofensivo às pessoas. É particularmente desagradável e ofensivo porque é a verdade e porque ninguém quer conhecer a verdade.

   "Se você o compreender, será mais fácil falarmos. Uma coisa, porém, é captar com o intelecto que o homem não pode fazer nada e, outra, experimentá-lo " com toda a sua massa", estar realmente convencido de que é assim e nunca esquecê-lo.

   "Essa questão de fazer ( Gurdjieff acentuava esta palavra de cada vez) suscita, aliás, uma outra. Parece sempre às pessoas que os outros nunca fazem nada como deveriam, que os outros fazem tudo errado. Invariavelmente, cada um acha que poderia fazer melhor. Ninguém compreende, nem sente a necessidade de compreender, que o que se faz agora- e principalmente o que já foi feito- de certa maneira, não se poderia fazer de outra maneira. Já observou como todos eles falam da guerra? Cada qual é de opinião que não se faz convenientemente. Em verdade, no entanto, tudo é feito de única maneira possível. Se uma só coisa pudesse ser feita de modo diferente, tudo poderia tornar-se diferente. E talvez, então, não tivesse havido a guerra.

   "Tente compreender o que digo: tudo depende de tudo, todas as coisas estão ligadas, nada há separado. Todos os acontecimentos seguem, portanto, o único caminho que podem seguir. Se as pessoas pudessem mudar, tudo poderia mudar. Elas, porém, são o que são e, por conseguinte, as coisas também são o que são."

   Isso era muito difícil de engolir.

   Não há nada, absolutamente nada, que possa ser feito? Perguntei.

   Absolutamente nada.

   E ninguém pode fazer nada?

   Essa é outra questão. Para fazer é preciso ser. E é preciso, antes de tudo, compreender o que significa ser. Se prosseguirmos estas conversas, verá que nos servimos de uma linguagem especial e, para estar em condições de falar connosco, é necessário aprender essa linguagem. Não vale a pena falar na linguagem comum, porque nela é impossível compreender-se. Isso o espanta. Mas é a verdade. Para chegar a compreender, deve-se aprender outra linguagem. Na linguagem em que falam, as pessoas não se podem compreender. Verá mais tarde porque é assim.

   "A seguir, deve-se aprender a dizer a verdade. Isso também lhe parece estranho. Você não se dá conta de que devemos aprender a dizer a verdade. Parece-lhe suficiente desejar ou decidir dizê-la. E digo-lhe que é relativamente raro que as pessoas digam uma mentira deliberada. Na maioria dos casos, pensam dizer a verdade. E, no entanto, mentem o tempo todo, quer quando querem mentir, quer quando querem dizer a verdade. Mentem continuamente, mentem a si mesmas e mentem aos outros. Por conseguinte, ninguém compreende os outros, nem se compreende a si mesmo. Pense nisto: - poderia haver tantas discórdias e mal-entendidos profundos e tanto ódio ao ponto de vista ou à opinião do outro, se as pessoas fossem capazes de se compreender? Elas, porém, não podem compreender-se, porque não podem deixar de mentir. Dizer a verdade é a coisa mais difícil do mundo; será necessário estudar muito e durante muito tempo, para poder um dia dizer a verdade. O desejo só não basta. Para dizer a verdade, é preciso ter-se tornado capaz de conhecer o que é a verdade e o que é uma mentira- e, antes de tudo, em si mesmo. Mas isto ninguém quer conhecer."