Página de inicioO trabalho
 
   Onde colocas a sensação do Eu? O lugar onde cada um põe a sensação do Eu mais mecanicamente, é o lugar onde mais se identifica. Se pudéssemos colocar esta sensação do Eu plenamente na "recordação de si" não nos identificaríamos. Mas esta acção é um acto consciente, porque ninguém pode recordar-se a si próprio de forma mecânica. A recordação de si é um acto consciente, uma colocação consciente do Eu que requer atenção.

   Uma pessoa pode estar totalmente identificada com o seu estado interior, pode sentir-se deprimido ou furioso e ser simplesmente o seu estado. Então, a sua sensação do Eu e o seu estado são uma e a mesma coisa. A isto, chama-se identificação interior. Está identificado consigo mesmo. A sua sensação do Eu está colocada no seu estado de ânimo. Suponhamos agora que observa o seu estado à distância , a sensação do Eu estaria colocada noutra parte. Isto requer, entre outras coisas, atenção. A atenção coloca-nos na parte mais consciente dos centros. Quando estamos identificados com um estado interior e o observamos, deixamos de estar automaticamente identificados.

   Neste trabalho utilizamos a desidentificação como um poderoso instrumento que nos pode revelar uma nova sensação do Eu, mas é um instrumento que se desenvolve com a sua própria utilização. Se estamos continuamente identificados com tudo o que nos atravessa é muito difícil a transformação ou o vislumbre de outra coisa. É necessário que nos dividamos em dois, ou seja, que sejamos capazes de observar os nossos estados. Se esta divisão for possível, se conseguirmos dividir-nos entre o observador e o observado, começamos a ser capazes de mudar a posição habitual. Esta é uma maneira de nos libertarmos da prisão de nós mesmos.

   No que respeita a estar identificado com a vida, na medida em que consigamos prestar atenção ao que fazemos ou no que estamos envolvidos, deixaremos de estar identificados. A vida é uma série de eventos e de estados. Não são as coisas, as pessoas, os objectos, mas os eventos que põem estas coisas, estas pessoas e estes objectos, em relação connosco em tempos diferentes. Um evento reúne os elementos, coloca-os em movimento e passa.

   A vida deveria ser vista como uma série de eventos, não como um conjunto de coisas, pessoas ou meros objectos visíveis. Se puderes contemplar a situação em que estás envolvido como uma classe particular de evento, consegues não identificar-te com ela e recordo-te que para que isto ocorra é preciso atenção e esforço consciente. Todos os eventos se repetem. Há só um número determinado de eventos que podem suceder a cada pessoa. A vida extrai a nossa força através de eventos repetidos e gastos com os quais sempre nos temos identificado. Se pudermos separar-nos internamente de qualquer evento com o qual nos tenhamos identificado toda a vida, tratando de o isolar e dando-lhe uma fórmula, estaremos mais livres dele.

   Neste trabalho deve haver um grande contraste entre a vida mecânica e a "vida-trabalho". Devemos entrar na vida e passar por tantos dramas e comédias quanto nos seja possível, para assim acumular um grande material nos centros, uma plenitude de experiências, porque de outra forma o contraste necessário entre a vida e este trabalho não é possível. Uma pessoa que não conhece nada da vida vê uma diferença escassa entre a vida e o Trabalho, carece de base de contraste ou tensão de contrários nela. É dizer, toma a vida e o Trabalho na mesma escala.