Página de inicioO trabalho
 

   Se devemos estudar e conhecermo-nos a nós próprios, devemos fazê-lo como se estuda qualquer máquina complexa. Há que conhecer as suas peças, as condições do seu trabalho correcto e as causas do seu trabalho incorrecto.

   Entre as peças da nossa máquina, destacam-se os cérebros e as funções que os expressam na vida. A máquina humana completa é composta de sete formações deste tipo. Quatro delas asseguram o funcionamento corrente, a nossa participação elementar na vida; as outras três, além desta participação, constituem mais especialmente o suporte da individualidade propriamente dita.

   As quatro formações ordinárias, aquelas que asseguram a nossa vida corrente, compreendem:

  • A intelectualidade que tem como função a invenção e o pensamento.
  • A afectividade que tem como função as emoções e os sentimentos.
  • A motricidade que tem como função o movimento no espaço, todo o trabalho externo do organismo.
  • O instinto que tem como função o mantimento automático da vida orgânica, todo o trabalho interno do organismo.

   Uma quinta formação participa, por um lado, na nossa vida quotidiana (é este o único dos seus aspectos reconhecidos habitualmente) e por outro, na elaboração da individualidade verdadeira. Trata-se da sexualidade, função do princípio masculino ou feminino, em todas as suas manifestações cuja finalidade é a participação na "criação", criação relativa ao nível sobre o qual funciona o sexo.

   Outras duas formações existem todavia no homem, mas não temos quase nenhum contacto com elas; o homem vulgar não as conhece; aparecem unicamente nos estados superiores de presença e a linguagem normal não tem palavras para elas:

  • O centro (e a função) emocional superior que está ligado ao estado de presença de si.Com esta presença de um eu superior permanente, formando uma individualidade estável dotada das faculdades correspondentes de consciência de si, de atenção e de vontade, aparecem os sentimentos reais, um sentimento de si verdadeiro e os sentimentos de ordem superior que estão associados com ele.
  • O centro (e a função) intelectual superior manifesta-se através do pensar objectivo. Está ligado ao estado de presença universal, dotado de consciência objectiva e de sentimentos universais dos quais o homem vulgar não tem a menor ideia.

   As funções são a expressão dos centros na vida, a sua manifestação e o seu conjunto dá a cada natureza humana o seu carácter próprio. As funções são-nos mais facilmente acessíveis do que os centros e o estudo de si não pode começar senão por elas. São a nossa forma de estar na vida e por este facto, podemos observá-las.

   Uma aproximação suficiente permite, sem desnaturalizar nada no homem, considerá-lo como um ser que vive segundo três modos: orgânico, afectivo e intelectual, dotado de três cérebros que nele funcionam em três níveis diferentes. Assim, os centros e as suas funções constituem um conjunto complexo cujo conhecimento é muito importante. São ao mesmo tempo receptores de energia, gravadores, transformadores (ou melhor dito selectores) e emissores.

   Cada centro é um aparelho receptor de energia ocupado em captar os diversos elementos que são para a máquina as três classes de alimentos (comida, ar e impressões). Mas para ir juntar-se ao potencial energético do organismo, esses alimentos devem converter-se em algo assimilável para o grande acumulador, onde cada centro extrai logo a qualidade de energia que lhe é própria. Os próprios centros não podem alimentar-se directamente. Esta recepção de energia pela máquina humana e a maneira como essas energias podem fazer-se assimiláveis deixam avistar uma alquimia interior complexa que, para ser compreendida, requer um estudo especial e difícil. Por exemplo: certas impressões ou influências recebidas pelos centros, tais como as influências planetárias, são de proveniência invisíveis ou longínquas. Por outro lado, no organismo, cada espécie de alimento sofre transformações particulares que levam à assimilação de uma parte dos seus constituintes e à eliminação de outras; além disso, cada tranformação de energia tem os seus circuitos particulares.

   Cada centro é também um aparelho selector e, em certa medida, transformador. Extrai da reserva central de energia a que corresponde à sua natureza "essencial" e a seu nível de funcionamento e em cada indivíduo, dá a essa energia as características inerentes à sua própria estrutura, isto é: conforme as características da sua essência.

   Cada centro é também um aparelho emissor devido ás funções que o incumbem e que são a actividade que lhe corresponde exercer na vida interior ou exterior do indivíduo. Por fim, cada centro tem a sua memória própria. À sua parte emissora-receptora, estão ligados aparelhos gravadores feitos de matéria sensível que cada um compararia, actualmente, com memórias de computador, mas que Gurdjieff comparava com cilindros de cera virgem. Tudo o que nos sucede, tudo o que vemos, ouvimos, fazemos, aprendemos, grava-se nesses rolos. Todos os acontecimentos interiores ou exteriores deixam impressões nesses rolos. Trata-se, de facto, de uma impressão, de um rasto, que pode ser profundo ou superficial que pode também ser fugaz e desaparecer muito depressa sem deixar traço. Todavia essas inscrições ou impressões gravadas nos rolos dos diferentes centros são relacionadas entre si, no nível da mente pelas associações.

   Cada centro em particular, assim como o indivíduo inteiro com o conjunto dos seus centros, tem, pois, um lado passivo, receptor, aberto em maior ou menor grau, a umas energias que vão até ele; tem também um lado activo, realizador mais ou menos eficiente de uma intervenção nas formas da vida; e tem, entre estes dois, uma acção selectiva responsável da qualidade própria que ele impõe a esta utilização da sua energia.

   Através de todas estas noções que podem parecer, à primeira vista, mais ou menos arbitrárias, o mais claro para nós é que cada centro tem características específicas próprias cujo conhecimento é importante para a busca de um conhecimento de si: é um dos primeiros objectivos da observação de si. Actualmente não podemos saber nada, ou muito pouco, das partes de nós mesmos das que habitualmente estamos desvinculados (as duas funções superiores e os níveis superiores da função sexual), mas podemos observar as quatro funções com as quais vivemos o dia a dia. Graças á observação repetida dessas funções, nos é possível, eventualmente, tomar pouco a pouco consciência dos traços que caracterizam cada uma delas em sua origem, no momento em que nasce do centro com o seu impulso inicial e talvez, chegar assim ao conhecimento desses centros, isto é: ao conhecimento da nossa própria essência, sem a qual não há conhecimento de si. Mas isto não nos é possível de uma só vez e a observação de nós mesmos não pode começar, sem risco de um grave erro, mas sim pela observação das nossas primeiras quatro funções: intelectual, emocional, motriz e instintiva. Esta observação consta de duas etapas, dois níveis. Estas funções devem primeiramente ser observadas e reconhecidas em todas as suas manifestações exteriores; logo podem ser observadas em cada um, esforçando-se em reconhecer e compreender as suas tendências interiores fundamentais que lhes dão a forma exterior sob a qual nos manifestamos.

  • CENTRO E FUNÇÃO INTELECTUAL
  • CENTRO E FUNÇÃO EMOCIONAL
  • CENTRO E FUNÇÃO FÍSICA